06 julho, 2011

Recife, 14 de outubro de 2007

Meu grande amor,
Como posso falar sobre um diamante que já tenho? Lindo, depois de você não há nada, você é único, é maravilhoso e sempre será meu grande amor!
Estamos juntos sempre... Não importa se moramos em casas diferentes, o nosso amor nunca terá um final e sim um espaço a mais nos nossos corações. É como eu sempre digo: o amor de uma mãe pelo filho e o amor de um filho pela mãe é totalmente imortal. O seu grande talento é em ser simpático e bastante carinhoso, de uma grande personalidade, sempre buscando seus sonhos dentro do seu espaço, sem atropelar ninguém. Você nunca perde por demonstrar carinho e atenção para as pessoas a quem ama. Continue assim meu filho, pois nossa tarefa é a de nos tornarmos livres ao expressar o amor e a amizade nas nossas experiências cotidianas com todos.
Qual será o grande sonho de uma mãe para seu filho? Que seja muito feliz e que Deus sempre esteja te guiando, iluminando todos seus passos em cima dos seus acertos e erros. Nunca se esqueça de que seu sorriso é importante, porque cativa e transmite confiança e alegria. Teu sorriso é fonte de amor, paz e compreensão e é a melhor expressão de toda sua vida.
Pois é lindo, aproveitando essa oportunidade e mais uma vez eu te digo: EU TE AMO. Aqui eu acrescento e confirmo o grande amor que sinto por você e que tenho muito orgulho em tê-lo como meu filho.
Contudo, celebro todos os dias e não somente hoje o prestígio de ter você no meu coração e também de celebrar o nosso maravilhoso amor, que Nossa Senhora de Fátima sempre nos ilumine e nos proteja.
Meu filho, você é e sempre será um dos melhores presentes que já ganhei e sempre será a melhor coisa que me aconteceu, obrigada filho por você "existir" e eu sempre poder te amar. Conte sempre comigo pois além de ser sua mãe sou e serei sempre a sua melhor amiga em todos os momentos da sua vida.
Milhões de beijos.

Fátima Barbosa.

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"You are my sweetest downfall
I loved you first
Beneath the sheets of paper lies my truth
I have to go
Your hair was long when we first met"
:~

30 maio, 2011

Trechos de "Mutações"

"Quando pequena, eu era fascinada pela lua.
Quando a lua estava nova e delgada, eu ia para junto da janela e me curvava três vezes diante dela. Assim, um desejo se tornava realidade. E, se tinha pesadelos, pedia a ela para ninguém que eu amasse me deixar."
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"Houve alguém que, certa vez, subiu um lance de escadas, carregando-me, e me depôs, cuidadosamente, numa cama, Minha cabeça repousava na curva de seu pescoço.
Deve ter sido papai.
Um homem caminhando comigo por uma estrada rural. Ele era alto e usava um casaco de couro marrom e nada dizia, mas, apertando nossas mãos, fazíamos sinais secretos um para o outro.
Deve ter sido papai também."
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"Apenas me deixou uma grande carência. Isso me marcou tanto que muitas das experiências de minha vida estão relacionadas ao fato. O vazio que ficou em mim, com a morte de papai, tornou-se uma espécie de buraco, dentro do qual experiências posteriores se acumularam."
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"Visitávamos o túmulo de papai todos os domingos.
Um dia enterrei todas as minhas bonecas em seu túmulo. Não queria que ele ficasse ali sozinho. Roubei flores de outros túmulos, para alegrar o de papai e das bonecas.
Todos os adultos ficaram zangados. E mamãe falou sobre a morte de tal maneira que ela se tornou, para mim, tão bonita quanto o amor.
Quis morrer logo."
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"Algumas vezes, Karen levava a mim e à minha irmã para passear, a pé. Tínhamos certeza de que fazia isso para pensarem que era nossa mãe. Eu sempre temia que ela conseguisse. Usava roupas bizarras, tinha um maxilar saliente e se movimentava de maneira desajeitada, de modo que eu sempre corria um pouco à frente ou atrás dela. Ninguém devia suspeitar de qualquer relacionamento entre nós.
Um dia, ela estava chorando na cozinha porque todos os seus dentes tinham sido arrancados. Demorou uma semana inteira para a dentadura ser colocada. De repente, ela parecia uma estranha, porque tinha um buraco esquesito no rosto onde era o lugar da boca. Evitei-a o mais que pude, e isso a fez chorar ainda mais. Com soluços altos.
Ela não sabia ler histórias direito, nem era de falar muito. Mas, quando fazia chocolate, nos fins de tardes, e se sentava conosco à mesa da cozinha e sorria, minha sensação de segurança era a maior que recordo ter quando criança, somente porque ela, também, fazia parte da família.
Só uma vez fomos a casa dela. Um pequeno quarto escuro, com um fogãozinho, pratos e objetos de toalete empilhados na única mesa. Jornais sobre as cadeiras, uma janela para uma parede branca, apenas alguns poucos metros de distância. Uma cama estreira - fiquei imaginando como o corpo gordo dela podia repousar ali.
Ofereceu-nos cafezinho e mamãe encarregou-se da conversa toda. Ela mostrou-se aliviada quando chegou a hora de irmos embora.
"Karen deve ter ficado feliz", disse mamãe.
Muitas vezes experimentamos as coisas de maneiras diferentes.
Ela morreu dormindo, uma noite, naquela cama estreira. Chorei muito mais do que quando mamãe me disse que papai morrera.
Minha consciência dói quando penso que talvez ela compreendesse por que eu sempre corria na sua frente, ou atrás, na rua."
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"E o amor.
Ansiava por experimentá-lo, tal como o via na tela: abraçar um homem com camisa branca e um sorriso brilhante, que me olhasse de cima, ternamente, e sussurrasse as mesmas palavras sussurradas pelo Herói à Heroína.
Escutar os violinos, quando ele me beijasse.
Ah, se eu pudesse crescer um pouco mais depressa. Eu lançava um olhar ansioso para meus seios inexistentes."
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"Os cantos escuros. O coração disparando. A forografia de papai debaixo de meu travesseiro. Um jarro d'água na mesa-de-cabeceira, para eu poder, continuamente, molhar os olhos, a fim de mantê-los abertos. O perigo de adormecer e ser atacada por alguma coisa escondida entre os terrores da noite.
Finalmente, a fuga para o banheiro. Um alívio quando a porta foi trancada. Um aposento onde eu podia ver plenamente todos os cantos. Uma coberta e livros, para minha segurança. Um sono exausto, no chão do banheiro, até a primeira pessoa voltar para casa e bater à porta e perguntar que doidice infantil era aquela."
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"Aceitei meu fracasso como compreensível e completo. Previ que passaria o resto de minha vida como uma "estranha". Mas, de preferência, atrás de uma porta fechada, para ninguém saber."
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"Recordo aquilo que penetrou mais fundo em mim - e a sensação de isolamento foi a experiência traumática.
Deitada na cama, à noite, ouvindo os adultos rirem e conversarem na sala de visitas, pensando: "Quando eu crescer farei parte desse mundo maravilhoso de idéias e de risos".
Mas cresci e, às vezes, ainda me sinto uma estranha, acreditanto que todos os demais fazem parte de um grupo"
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"Esqueço como são reais aquelas experiências de infância que os adultos chamam de fantasias.
Para a criança, não se trata de fantasia: o medo de ser abandonada, o Lobo Mau, a escuridão do armário - tudo é real. O rótulo que colocamos é falso.
O que é real, chamamos de fantasia - isto é a fantasia"
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"Pela primeira vez, tive consciência dela como um ser humano, com uma realidade além daquela de ser minha mãe. Senti falta dela, durante os seis meses em que ficou fora, e coloquei seu retrato debaixo de meu travesseiro, em vez do retrato de papai. Quando voltou, ela estava mais gorda e já não tinha um aspecto tão jovem. Dispunha de mais tempo do que antes. E eu tinha menos tempo para ela."
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"Não conversávamos muito porque ambos éramos tímidos - o silêncio fazia parte de nosso relacionamento. A vida pulsava em torno de nós de maneira diferente. Nosso "boa noite" junto ao portão era tremendamente importante. O mais próximo que chegamos do soar de sinos. Mamãe começou a ficar à janela, atrás das cortinas, quando me esperava chegar em casa. Tivemos de encontrar outros portões. Ele usava quase sempre botas de borracha e era muito mais alto do que eu. Um dia, ele me disse que estava tudo terminado. Não podia gastar toda sua juventude com uma virgem, declarou. Tinha lido em algum lugar que podia ser perigoso para um jovem em fase de crescimento não fazer sexo. Além disso, ia prestar os exames para a universidade. Como estudante, não podia andar por aí com uma garota de quinze anos. Esperava que eu compreendesse e não levasse para o lado pessoal."
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"Os livros sempre foram coisas vivas para mim. Alguns dos meus encontros com novos autores mudaram um pouco a minha vida. Quando eu estava perplexa, procurando inutilmente definir algo em mim mesma, surgia determinado livro e se aproximava de mim, como faria um amigo. Atrás da capa estavam as perguntas e as respostas que eu procurava."
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"Um jornalista, certa vez, perguntou-me como uma pessoa se sente ao receber tantos prêmios e honrarias.
"Infelizmente, é impossível conversar com eles", eu disse.
Ele riu e pensou que eu estava fazendo graça.
Não.
Aqui estou numa casa grande demais para mim e minha filha. Sinto-me triste, cansada, feliz. Mas não tenho com quem partilhar tudo isso.
Em minha cama, há uma menininha. Ela acorda, mas só pela metade, quando me deito a seu lado.
"Mamãe, minha boca está cheia de beijos." "
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"Ela teve uma vida cheia de segurança. Os irmãos eram unidos, e a casa estava sempre repleta de gente. Havia risos, música, amor.
Olhar as fotos de mamãe, quando ela era jovem, me entristece. Ela aparece linda, com os olhos cheios de felicidade e expectativa.
Por que a vida nunca é como a gente sonha e planeja?
Por que o tempo é tão implacável, roubando-nos as oportunidades, se não somos suficientemente rápidos para agarrá-las logo?
Por que assusta tanto chegar aos sessenta, quando um dia se teve dezesseis anos, e se acredita que o tempo era interminável? Como não descobrimos que o tempo se movimenta com crescente velocidade e destrói tudo o que pensávamos poder deixar para o futuro?
A felicidade de mamãe nessa foto parece muito com aquela que vejo na fotografia de crisma de minha irmã. Ela nunca saiu de Trondheim, onde vive com o marido e cinco crianças. Parece um pouco menos feliz nas fotografias recentes do que naquela em que estava toda vestida de branco, o livro de orações na mão, abraçando o mundo todo com seu sorriso.
Investimos tanto em nossos sonhos e esperanças.
Certa vez nós, quando crianças, fomos acordadas na manhã de nosso dia de crisma. O dia pelo qual esperamos tantos anos, o dia em que algo mudaria, a vida adulta deveria começar e, com ela, o direito de tomarmos nossas próprias decisões.
Numa foto emoldurada, posamos para a posteridade, ao lado de outras fotografias em que aparecemos bebês, aos cinco anos, colegiais, noivas.
Olhares perdidos no vazio, nós nunca mais existiremos.
Logo serei uma velha senhora de cabelos brancos, em cujo colo alguém deixa um bebê, dizendo:"Sorria, vovó". Eu, que fui fotografada, há tão pouco tempo, no colo de minha avó. Eu, que ontem colhia flores, não consigo imaginar tudo terminado amanhã."
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"Arranja quatro namorados e passa a viver de amor.
O dia intero, a noite inteira, com os quatro.
Uns gatarrões, com o pêlo desgrenhado, cicatrizes e ferimentos de brigas pelo corpo inteiro - gemendo e tremendo, a espalhar mau cheiro por nessa casa, noite e dia.
E Tasse entra e sai, sem rumo certo; Nunca se deixa apanhar, altaneira, como faz conosco. Finge não entender. Tortura e atormenta os parceiros. Não nos permite dormir de noite.
Claro que vai engravidar, se já não engravidou.
uatro gatos gemem e sofrem.
Não adianta.
Algumas são assim. Não tem jeito."
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"Vovó morou conosco, enquanto papai era vivo.
Uma velha que abria seu coração de menina comigo, porque sentia que éramos almas gêmeas.
Ela recriava o mundo, tornando-o um lugar maravilhoso, onde tudo podia acontecer. Onde uma árvore ou uma pedra eram mais do que víamos. Me mostrou como as veias, nas folhas, estavam vivas, e pulsavam. Foi a primeira a me dizer que as plantas choram quando são feridas.
Em nossos passeios, a natureza fazia parte do reino dos céus, e Deus ficava espiando atrás de sua cortina de nuvens, sol e estrelas.
Tudo o que crescia tinha sua beleza, uma vida própria. Nunca falamos de preservação do ambiente, mas vovó me ensinou que eu não tinha o direito de dominar a natureza, violentá-la, como se não fosse responsabilidade minha.
Um rosto de feições fortes e muitas rugas. Dois olhos nos quais o branco amarelara, mas em ambos o centro ainda era um maravilhoso azul-claro. O cheiro bom que eu sentia, ao repousar a cabeça em seu peito. O calor de seu abraço.
Só quando cresci me ocorreu que vovó era uma velha. Notei que as costas nas quais eu me pendurava estavam encurvadas, caídas. O cabelo de que ela se gabara - como os meninos gostavam de puxá-lo, quando era garota - tornara-se um fino rabicho branco, que ela retorcia para formar um pequeno coque, atrás da cabeça.
O melhor de tudo era passar a noite no quarto dela. A escrivaninha junto à janela. Ninguém possuía gavetas tão excitantes quanto as dela, cheia de cartas, caixas e jóias, todo tipo de coisas. Lembranças de uma longa vida.
Quando vovô morreu, eles estavam divorciados havia muitos anos. Todos diziam que ele a deixara porque ela era difícil e ruim. Isso eu nunca entendi. Costumávamos sentar sobre a coberta dourada de sua cama, com os olhos fixos no retrato de vovô, acima da estante, e lá ficávamos um longo tempo, antes de nos aproximarmos de uma foto de papai. Sua voz, quando me falava do tempo em que era a jovem esposa de um oficial e papai um garotinho - o mais maravilhoso do mundo. Vovô chegando em casa, à noite, em seu esplêndido uniforme, carregando um, depois o outro.
Nunca perguntei à vovó o que aconteceu; eu sabia que seus pensamentos não iam além dos anos felizes. Quase todo o tempo de minha convivência com vovó ela viveu num mudo de fantasia, mais real do que qualquer uma de suas lembranças desagradáveis. E, nesse mundo, nós duas vagávamos horas sem fim.
O ano em que eu tinha dezessete anos, minha melhor amiga estava com setenta e cinco."
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"É doloroso lembrar a última parte da vida de vovó. Um abrigo para idosos. Mobiliado com bom gosto. Todas as cores combinando, as funcionárias com aventais brancos e sorrisos pacientes. Entretanto, logo que a campainha tocava, para o café-da-manhã, o almoço ou a ceia, as cinquenta velhas senhoras imediatamente tinham de sair dos quartos e marchar para o refeitório. Sentar-se à mesa com pessoas cuja companhia não desejavam. Conversar sobre acontecimentos pelos quais não sentiam nenhum interesse. Ter amigas com quem só possuíam em comum a solidão e a espera.
O pânico, quando ela tinha de passar um dia acamada; três dias de cama representavam uma transferência para a ala da enfermaria. Havia uma longa lista de espera para os quartos de residência e raramente alguém voltava da enfermaria. Um dia, vovó também foi levada para lá.
"É muito melhor para os velhos ter supervisão constante, poder ficar com outros na mesma situação." Os parentes que só desejam o melhor para seus entes queridos e os enviam para uma instituição onde não se é mais "eu", e sim "nós".
Talvez "nós" tenhamos que ir para a cama cedo - isso se, naquele dia, "nós" conseguimos levantar. Algumas vezes, os banhos noturnos e os preparativos para a noite são às quatro da tarde. Um tanto cedo, talvez, mas há falta de funcionários - e de qualquer maneira, "nós" não temos tanta coisa assim para fazer quando estamos acordados.
Bater à porta não é mais necessário. Que tipo de segredos pode ter uma pessoa de idade? Alguém que só dispõe de um leito, a menos de um metro de distância do vizinho. Onde não há livros, nem móveis ou quadros. Segundo o regulamento. Mas, se a enfermeira é boazinha, "nós" podemos pendurar uma fotografia na parede. No entanto, é melhor não usar prego - deixam uma marca feia. Assim, "nós" podemos ficar deitados e olhar fotografias de família e amigos que têm tanto a fazer, em sua própria vida, a ponto de adiarem semanas a visita ao velho. Afinal, "nós" temos tanto conforto. Algumas vezes, parece que as visitas são um aborrecimento.
Eu me lembro de vovó me mostrando o lugar. Queria dizer-lhe que não devia se refugiar num estupor. Lembrar-lhe que eu a amava e queria partilhar experiências, como costumávamos fazer. Ela não devia sentir-se distanciada da vida, da qual fizera parte de maneira tão rica.
Segurei a mão de vovó, não sabia mais como falar-lhe. Só percebia que em breve ela iria para uma terra de sonhos.
A vida jamais se tornou o que ela desejava. E o fim era mais terrível do que qualquer outra coisa. Quando fui vê-la, perguntou quem eu era. Como se jamais tivéssemos nos abraçado quando eu era garotinha. Ela não sabia mais que, outrora, nós duas tínhamos partilhado os segredos mais maravilhosos.
Então, praticamente parei de ir visitá-la.
Vovó morreu e tudo mudou para sempre.
Talvez seja loucura nos prendermos a alguém que tem de partir muito antes."
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"Algumas vezes, quando ela pensava que todas nós dormíamos, eu a ouvia chorar, cobrindo a cabeça com o edredom. Ou se trancava no banheiro, o único lugar onde podia ficar sozinha. Olhando a porta fechada e ouvindo-a soluçar desesperadamente, lá dentro, desejei que o amor fosse sempre superficial e sem complicações para mim."
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"Não vejo nenhuma tristeza em seu olhar, diante da ideia de que terá de se separar de mim. É a questão da bagagem que a incomoda: que roupas e livros levar. Em seus olhos ausentes, tão impassíveis diante da perspectiva de deixar mamãe, antecipo o futuro... Talvez dentro de apenas uns poucos anos. E me sinto agradecida, porque tenho uma rápida previsão do que irei atravessar.
Uma separação na qual serei eu quem vai chorar. Enquanto sua mente, há muito, terá tomado um caminho pelo qual jamais poderei segui-la."
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"Na ocasião eu só tinha vovó. De manhã fui vê-la e desabafei. Solucei num peito que jamais abrigara o sonho agora esmagado dentro de mim. No curto espaço de tempo de uma noite, tudo o que era habitual e familiar fora arrancado de mim, e eu estava no meio de uma transição. Havia uma lição a ser tirada daquilo, algo difícil de compreender: que carregamos conosco nosso destino e que o destino de cada um não depende desse tipo de fracasso ou sucesso.
Tomar consciência disso é um longo processo, que inclui uma abertura ao sofrimento, encarando-o como parte da vida, do desenvolvimento, da mutação."
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"Não ser suficientemente capaz, suficientemente talentosa, era a grande dor. Meses que pareciam intermináveis, sem nenhuma meta ou significado. Dias sem estrutura. Longas noites cheias de pesadelos. Uma eternidade entre a hora de acordar de manhã e o sentimento de abandono, à noite."
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"Certa manhã sinto um bolo no estômago. O tipo de bolo que a gente tem quando está triste sem nenhuma razão especial. A pessoa sentada junto de mim sente a mesma coisa. Ficamos tentando descobrir a causa da repentina infelicidade. E então a tristeza desaparece, pois a partilhamos."
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"A voz de Linn ao telefone. Cheia de distância e reserva. Garanto que lhe amo.
"Pequenininha, você é mais importante para mim do que qualquer outra pessoa no mundo."
"Não é verdade"
A voz de uma criança fere fundo.
Vejo as babás e vizinhas segurando minha filha, fazendo o que meus braços e mãos deveriam fazer. Talvez ela tenha consciência da piedade que sentem, mesmo quando tentam ocultá-la.
Percebo que, para elas, minha profissão e sucesso equivalem a um fracasso, porque não estou preenchendo meu lugar em casa, e têm de me substituir. Compreendo os pensamentos críticos que adivinho nelas, porque sinto a mesma coisa.
Tenho medo de que minha solidão se transmita à minha filha. Para mim a solidão funciona. Mas talvez ela anseie por algum tipo de relacionamento que compense a minha ausência."
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"O homem com quem estive casada durante todos aqueles anos chama-se Jappe.
Existe muita coisa que lembro e reconheço, muitas teias na mesa, em algumas das quais eu de boa vontade me enredaria. Mas há também profundos abismos de estranheza.
Olho Jappe e sinto, agora, quanto gosto dele e como é bom saber que ele existe.
Um dia, ele vem com sua filhinha para meu chalé de verão. Ela tem dois anos. Eles passeiam juntos pelos rochedos, e eu fico à janela, olhando-os. Ninguém me observa e eu choro. Ele está segurando sua mão, apontando coisas, dando-lhe explicações. Ela é pequena e se sente segura ao lado dele. Seu sorriso é diferente de todos que eu vira.
Há muitos anos, quando decidimos nos divorciar, ficamos sentados, de mãos dadas, no escritório do conselheiro matrimonial. Ele perguntou por que queríamos nos separar, se éramos tão amigos.
"Exatamente por isso", respondemos, alegramente.
"Até logo, então", disse ele, e se afastou. Ele não se virou nem uma vez. Eu me virava o tempo todo, porque talvez... Era tão estranho vê-lo caminhar entre as outras pessoas. Nenhuma delas lhe prestava atenção. Só eu sabia quem ele era, e o que lhe acontecera.
Se pudesse correr atrás dele, eu o teria feito. Mas minha boca não conseguia falar; meus pés não eram capazes de caminhar naquela direção.
Ele foi um ser humano com o qual eu vivi durante um longo tempo, e no entando foi como se jamais tivéssemos tido tempo bastante para conhecer um ao outro.
Mais do que qualquer outra coisa, lamento pelo que nunca dissemos."
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"Nós, que o conhecemos naqueles dias, olhávamos para ele e, secretamente, imaginávamos como conseguia suportar aquilo. Jamais falava a respeito. Seus únicos pertences eram o conteúdo de duas malas e alguns cartões-postais, com reproduções de pinturas, pregados na parede de seu quarto de hotel."
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""O que te faz mais feliz?", pergunto ao homem que me interessa. A chuva jorra do céu cinzento e sombrio. Eu imaginara nós dois caminhando ao sol nus, bronzeados e lindos, descobrindo coisas novas a respeito um do outro.
"Minha felicidade?", ele replica, e afasta os olhos do que está lendo. Não sabe o que penso. Talvez tenha medo de não dizer o que espero ouvir.
"Minha felicidade, acho que é quando trabalho, com o suor no corpo, o dia inteiro, fazendo alguma coisa pesada e física. Quando preciso usar o corpo todo, quando fico exausto e meus membros doem - e quando, afinal, termino. E vou me sentar dentro de casa. Descanso, sabendo que concluí o que pretendia fazer. Relaxo, com a alegria de um trabalho bem-feito"
Ele não pergunta o que me deixa feliz. Mas no dia seguinte eu descubro. Tivemos um almoço suntuoso. Ele elogia a comida que faço e se serve várias vezes. E ficamos deitados na cama, perto um do outro. Cheios de ternura. Quando não temos mais medos nem perguntas que nos separam. Só um prazer terno com o corpo e as mãos e o rosto e as expressões um do outro. Estou junto dele, da única maneira como realmente vivo.
Quando acordo, ainda está claro lá fora, ele já se levantou e eu vou descalça até a sala de estar, ainda cálida e feliz por causa dele. Verifico, então, que ele acendeu a lareira. Na cozinha, descubro café que pôs na chapa quente para mim, com uma xícara ao lado.
Não tenho um fiapo de roupa no corpo, ao sair para o jardim.
Ainda está chovendo, e os dedos do pé escorregam na terra molhada e cheirosa. E então eu o vejo adiante, junto à garagem, cortando madeira, para que eu tenha bastante no inverno. Ele cortou um toro e comprou um machado para a casa. Não sei em que pensa, mas parece tão feliz, bronzeado e vivo. De repente, lembro que está no meio de sua felicidade.
Entro em casa de novo e sinto minha felicidade fluindo através de todo meu corpo."
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"Nada termina jamais. Onde quer que alguém plante raízes brotadas do seu eu mais puro ou verdadeiro, ali encontrará um lar.
Voltar não é revisitar algo que falhou. Posso percorrer as antigas trilhas sem amargura, porque outros pés agora têm prazer com elas."
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"Noites em que permanecíamos deitados, muito próximos, e ele sussurrava que eu ficasse calada, para, com o silêncio, ter saudade de mim e me pedir para lhe falar outra vez.
Nossa ilimitada necessidade mútua pelo que o outro deveria representar. A impotência quando alguma coisa não dava certo.
Entramos na vida um do outro muito cedo e tarde demais.
Eu procurava a segurança absoluta, proteção. Uma grande necessidade de pertencer a alguém.
Ele procurava a mãe. Braços que se abrissem, cálidos e sem complicações.
Talvez nosso amor se originasse na solidão que ambos conhecêramos antes.
Seu sonho era a mulher talhada numa só peça. Mas eu me fragmentava em pedaços disparatados, quando ele não tinha cuidado.
Depois cada um foi para seu lado, vimos claramente os erros cometidos.
Sua fome de união era insaciável. Aquela fome se tornou uma necessidade vital para mim.
De certa maneira, cada um de nós semeou uma revolução no outro. Nós nos abrimos mutuamente por completo. Não apenas de maneira física, sexualmente - mas como seres humanos relacionados de um modo secreto, foi assim que nos ligamos."
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"Há muitas fotos de Linn daquela época. Está gorducha e feliz; seus olhos parecem já ter avaliado tudo o que acontece em torno dela. Olhos cheio de humor.
Sei que jamais poderei reparar os erros que cometi. Nem todas as escolhas que fiz eram as mais vantajosas para ela. Em inúmeras ocasiões a deixei aos cuidados de outrem.
Fico imaginando o que ela pensava, o que esperava.
Hoje quero colocá-la em meu colo, e dizer-lhe o quanto a amo e sinto falta de seu calor, de seu cheiro e da sua confiança absoluta."
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"O medo diminuiu e a solidão ficou mais fácil de suportar, quando ela enxergou a insegurança dele.
Enchia-se de ternura e olhava para além de sua violência e injustiça.
Não estava mais cega para seus defeitos e fraquezas, como no começo. Mas sua compreensão e respeito por ele cresceram.
Descobriu, surpresa, que isso era amor.
Com tristeza, percebeu que logo terminaria, que ela fora até ele quando ele já estava seguindo para outra parte.
Olhou para a filha que tinham e percebeu que, em breve, teria a responsabilidade sozinha.
No último ano, ela lutou para preservar o relacionamento, mesmo sabendo que era inútil e que não fazia bem a nenhum dos dois.
E, quando tudo terminou, teve a esperança de que ele não ficasse sozinho.
Que uma nova mulher tomasse conta dele melhor do que ela.
Mas, naturalmente, demorou um pouco para alcançar esse ponto.
Tentou lembrar-se como ele era cinco anos antes.
Algo tinha sido esmagado, e algo tornara-se mais vivo. Passara por uma mutação.
E, quando a amargura, o ódio e o desespero tinham desaparecido, ela teve certeza de que experimentara o amor e se enriquecera.
Mas nunca conseguiria falar sobre aquilo.
Vira o interior de outra pessoa, e estava cheia de ternura pelo que descobrira.
Durante um período de tempo, eles tinham pegado nas mãos um do outro e permanecido dolorosamente unidos.
Mas, só quando tudo terminou, tornaram-se verdadeiros amigos."
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"Tudo o que me era familiar estava a muitos quilômetros de distância - pessoas, odores, sons, experiências. Aqui, na ilha, eu me encontrava mnum mundo estranho, com estranhas árvores e pedras.
Estava isolada de tudo o que antes era minha vida. E num processo de procurar uma nova vida, dentro de mim.
Mutação que só a solidão na ilha tornara possível.
Sempre seguira os outros, porque era insegura. Estava acostumada a me voltar para os demais, em busca de ajuda e compreensão.
Mas agora, quando sentia mais medo e solidão do que nunca, alcancei pela primeira vez um senso de segurança interior.
Vivi ali por um rápido período de minha vida e o que levei comigo não foram as pedras, as árvores nem a beleza.
Parti da ilha com a solidão na bagagem e a sensação de que algo dentro de mim mudara para sempre."
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"Meu contato com os outros ficou mais fácil. Conquistei respeito quando me tornei independente e parei de me agarrar em alguém. Não precisava mais depender tanto de outrem, para minha felicidade.
Minhas exigências e expectativas, com relação ao comportamento das demais pessoas, para me dar segurança, desapareceram. Não completamente. Não para sempre. Mas jamais voltei ao estado anterior.
A dor se transformou - por assim dizer - em felicidade.
Creio que algumas experiências são menos frequentes agora, mas vivo uma vida mais harmoniosa.
É como funciona para mim.
Acho que a felicidade absorvente - quando o mundo inteiro fica perfumado, o sol brilhae a pessoa chega quase à inconsciência, com a emoção -, se tornou menos frequente. Mas existe. Terei sempre consciência de que existe. Entretanto, não me preocupo com o fato de não fazer parte de minha vida diária.
Não acredito mais num constante estado de felicidade. Como se mede a felicidade?
Acho que é bom reconhecer o momento, como ele se apresenta, e aceitá-lo como uma dádiva."
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"Linn está numa grande discussão com Ingmar. Quer que ele passe pelo fio de telefone e venha visitá-la.
Às vezes, eu choro.

Linn aparece à porta, de repente:
"Por que você está chorando, mamãe?"
"Algumas vezes, eu me sinto um pouco solitária"
"Você tem a mim!"
"Mas os adultos precisam de outros adultos, também."
"Você tem o vovô e a tia Nan."
"De vez em quando, a gente quer uma pessoa que tome conta da gente."
Linn abre as cortinas e fecha a janela.
"Se você levantar agora, mamãe, talvez possa me dizer como os bebês são feitos.""
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"Uma vida secreta que ele carregava consigo, para não ser tão estrangeiro nessa terra. Ele me contou seu desejo: de que a vida fluísse livremente sobre ele, de modo que a felicidade, se viesse, pudesse encontrá-lo aberto para recebê-la."
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"Eu fiquei sentada, timidamente, a um canto, observando.
Bibi, que viera conosco, chamou: "Agora, você precisa dançar, Liv", e meu marido gritou: "Vamos, dance!".
Bebi várias doses de vodca, para ganhar coragem, com a palma das mãos suando de medo, sabendo que me esperavam na dança.
Saí da segurança do meu canto, deixei um dos dançarinos colocar um braço em torno de minha cintura e, no momento seguinte, a música nos arrastava. Durante um curto espaço de tempo, a sala inteira girou sem parar e eu dava risadinhas, sentindo-me flutuar.
Lá longe, ouvi meu marido, às gargalhadas, dizer a Bibi: "Olhe para Liv! Parece um elefante dançando a polca!".
A sala parou de girar. Vi todos os rostos voltarem-se para mim, gargalhando; e eu me desprendi com um arranco, corri para fora, pela noite adentro. Corri sem parar, até encontrar um prado onde pudesse deitar-me na grama, que era suficientemente alta para me esconder do resto do mundo. Lá fiquei deitada, e ninguém sentiu minha falta; ninguém veio procurar-me. Depois de várias horas, fui dormir em meu quarto.
Um elefante infeliz chorou até chegar o sono, com a sensação de que não tinha condições de continuar vivo

É bom esquecer o desejo de viver uma vida igual à dos outros. Conhecer-se melhor, compreender a razão das necessidades de cada um. Perceber mais claramente as motivações dos outros e reconhecer nelas meu próprio medo e insegurança."
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"Ele lhe diz que sua alma é formada por grandes planaltos e repentinos abismos escuros, para dentro dos quais não consegue olhar.
Jamais compreendeu o desejo dela de lhe expor a sua vida.
O único abismo do qual ela tem consciência, em sua alma, é aquele que guarda seu medo e sua solidão, sem ele. E ela chora, e deseja que ele caminhe pelos planaltos.
Ele tem um horário a cumprir, um sentimento de culpa que sente a necessidade de espicaçar, depois de viver com ela momentos felizes. Ele tem que voltar para casa, para sua mulher, seus filhos e o jantar, e talvez sinta com tudo isso um prazer maior, porque ela lhe proporcionou a paz necessária.
E a mulher dos grandes planaltos e abismos profundos compra um livro e vai para casa, para seu telefone.
A mão dele é a única coisa que ela desejaria segurar, e ela deseja que algo aconteça, possibilitanto-lhe encontrar uma nova mão, antes de se afogar.
Mas ela sabe, também, que no dia em que encontrar outro terá de matar nela a vida, beijar como se fosse pela primeira vez - para provar, através de seu pobre corpo fiel, que, tornando-se parte de outro homem, esqueceu seu amado.
E sabe que acordará, depois, muitas, muitas vezes, talvez a vida inteira, desejando-o ainda. Lamentando aquilo que constituía os dois.

Enquanto ela ainda o possui, eles partem para um país quente. Ela lhe segura a mão, enquanto ele lê, e se sente tranquila, porque tudo está como de costume. Consegue suportar saber que há longos períodos durante os quais ele não pensa nela. Mas também sabe que a mão presa à sua logo lhe dará um rápido aperto, para provar que ela existe, para ele.
Em certas ocasiões, ele se vira e olha para ela, com felicidade, e, algumas raras vezes, surge um mal-estar em seu olhar. Então, ela sabe que ele está pensando em sua mulher e seus filhos, e percebe, com gélida nitidez, que ele a ama, mas vai deixá-la.
Como se lesse seus pensamentos, ele fecha seu livro. "Não poderia jamais viver sem você", ele mente, ao sol.
Ela acredita nele, até ele dormir abraçado com ela.
Mas sabe que, quando acordar, o sentimento de culpa dele também irá despertar e sua necessidade de segurança e de ordem, sua lealdade para com aquilo que sente ser sua responsabilidade. Que deve à outra.
Querido."
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"Uma alegria de ser eu mesma, de maneira positiva ou negativa.
Não foi nenhum milagre que me transformou. Não vivi feliz para sempre, dali em diante. Muitas vezes, tinha medo.
Mas me enriqueci interiormente; era mais amiga de mim mesma.
Difícil era a luta contra tudo, em torno de mim; certos livros, programas de televisão, filmes, jornais - os meios de comunicação de massa gritando todos os dias suas falsas verdades sobre o que é uma pessoa feliz, prometendo coisas gigantescas, o triunfo.
E ali estava eu, com minha pequena e simples felicidade, satisfeita com o que eu tinha, até me dizerem que o amor, por exemplo, tão maravilhosamente cantado, descrito e pintado, era muito mais do que eu tinha."
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"A mulher tem as mesmas necessidades e desejos do homem.
Precisamos de amor e queremos dá-lo.
Se, pelo menos, todos aceitassem que não existe diferença entre nós, no tocante aos valores humanos. Não importa o sexo. Não importa a vida que escolhemos viver.
Tenho meu incômodo, minha menopausa; meu horror de seis murchos e minha consciência da menina que sou e que não aparece mais em meu rosto."
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""O que é a vida, mamãe?", pergunta Linn. "Apenas as pessoas?"
Ela olha para alguns pequenos insetos que rastejam pelo chão, perto de nossos pés.
Digo-lhe que, quando eu era criança, havia com certeza mais tipos de coisas que rastejavam, mas as pessoas destruíram suas possibilidades de vida, da mesma maneira que destruímos pássaros e plantas e animais. Criaturas que ela jamais verá. E nós, que nos lembramos deles, não viveremos o suficiente para conservar suas lembrança viva.
"O mundo das flores, das brincadeiras, dos sonhos e das crenças, que ainda é seu, Linn", eu digo, "Você partilha comigo, neste momento - o mundo que você esquecerá. Embora a vida, em si - que ninguém pode ensinar-lhe -, esteja vivendo em você, agora"
Linn vai crescer num mundo onde ninguém viu outra coisa senão mares e atmosfera empobrecidos. Onde as estrelas que eu vi, quando pequena, não poderão mais ser divisadas.
Ela, que pode ligar a televisão quando quer companhia, que vai empanturrar-se de datas e de gramática, e ficar cercada por informações indigestas da sociedade onde vive - ela que está tão viva e livre, agora -, aos poucos será triturada no moinho do qual só saem os adultos."
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"Estou sentada num sofá, num quarto de hotel, dizendo adeus a um homem com quem não posso mais viver. Choro, e ele também. Por um instante, levanto os olhos. Na parede, diante de nós, há um espelho. Ali ele se contempla, ajeitando o cabelo sobre a testa, enquanto faz ruídos de quem soluça."
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"Ela foi criada num país onde a luz era azulada.
Uma menininha - num dia de inverno - com roupas de lã protegendo-a do frio - curvando as costas para se defender do vento -, gelada, como se vivesse no meio de uma bola de neve.
Mais tarde, em sua vida, conservou dentro de si essa sensação.
E a beleza do outono.
Durante toda sua vida adulta, esta sempre foi a estação em que se sentiu mais à vontade; mesmo em criança gostava mais do outono.
Quando as folhas assumem o mais maravilhoso tom de dourado - como se Deus quisesse enfeitá-las pela última vez, antes de caírem e morrerem e serem varridas pelo vento."
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"Jamais vou esquecer a solidão que senti quando criança.
Durante certo período de minha vida, escondi-me atrás de uma máscara. Não queria reconhecer nenhuma aspiração.
Agora, isso já faz parte de mim - é algo que posso partilhar. Tanto a solidão como a aspiração."
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"Queria tanto a experiênccia - a capacidade - de segurar uma mão a vida toda. Sem nada pedir.
Mas sigo meu próprio caminho. Estou ali inteira. Como uma grande carga trancada de terror, como capítulos esquecidos que precisem ser lembrados, como o medo de estar sozinha.
Toda a insegurança que habita a pessoa chamada Liv"
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"Percebo que fui educada para ser uma pessoa que os outros queriam que eu fosse, a fim de poderem gostar de mim e não serem incomodados por minha presença.
Essa pessoa não era eu.
Quando comecei a ser eu, senti que tinha mais a oferecer. A vida era mais rica.
Estou tentando eliminar todo o sentimento de culpa provocado por coisas sem nenhum significado e que servem de obstáculo àquilo em que realmente acredito."
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"Nenhum relacionamento entre as pessoas é perfeito.
Não há violinos tocando, quando alguém que eu amo me beija. O "happy end" de Hollywood é um produto fabricado, que jamais encontra equivalente na vida real. Um mundo de sonho que é perigoso, porque incita as pessoas a procurar sempre novidades. Acreditando que, daquela vez, encontraram "a pessoa certa".
Não são perfeitos. Sua amizade não é uma amizade perfeita. Eles têm muitas feridas. Mas sobrevivem.
E se redescobriram, quando pensavam que tudo estava terminado."
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"Me lembro de Kristina e Karl Oskar em Os Emigrantes. Jamais falam um com o outro a respeito de sentimentos. E nem creio que pensassem muito a respeito disso. Mas, quando Kristina está morrendo, a milhares de milhas de distância de sua terra natal, Karl Oskar senta-se à beira de sua cama, segura sua mão e diz muito tranquilamente, com uma certeza plena: "Você e eu somos os melhores amigos".
Não poderia ser dito de maneira mais bonita."
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"Uma das moças vai a seu quarto pegar alguma coisa. Não volta. Nós a encontramos nua na cama, amordaçada e estuprada. Um homem estava no banheiro quando ela entrou, escondido atrás da cortina do chuveiro. Puxou-a - ele estava l;a - sem roupas, com um capuz negro sobre a cabeça e uma faca na palma da mão.
Ajudo-a a vestir seu suéter e as calças. Os policiais estão à espera no correto. Ela vai ser interrogada e levada para o hospital, a fim de se submeter a exames.
Ela não está chorando. Mas não vou esquecer seus olhos - falam uma linguagem que não reconheço."
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"Viver em tal estado de incerteza é doloroso e difícil. Porém, tornou-se mais fácil agora que eu aceito isso como parte da vida. Viver com isso, e não a despeito disso."
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~continua~

10 maio, 2011

Lembranças

Como isso aconteceu? Faz tanto tempo que eu não consigo me lembrar claramente como tudo ocorreu, me lembro do almoço, me lembro de me chamarem, me lembro de assalto, me lembro de tiro, me lembro de lágrimas, me lembro de água, me lembro de remédios, me lembro de carro, me lembro de trânsito, me lembro de lágrimas, me lembro de tiro virar tiros, me lembro de assalto ser descartado, me lembro de dor, me lembro de olhares, me lembro de uma grande sala, me lembro de tios, me lembro de ombros, me lembro de abraços, me lembro de esquecer de tudo, me lembro de rir, me lembro de ir dormir, me lembro de insônia, me lembro de lágrimas, me lembro de uma amiga, me lembro de telefonemas, me lembro de jornais, me lembro de fazer apenas um simples pedido, me lembro dele não ser atendido, me lembro de desespero interno, me lembro de carro, me lembro de cemitério, me lembro de seu corpo, me lembro de lágrimas, me lembro de apoio, me lembro de te pedir perdão bem baixinho, me lembro de culpa, me lembro de teu rosto sem expressão, me lembro de multidão, me lembro de amigos, me lembro de lágrimas, me lembro de cobrirem seu corpo, me lembro de carregar teu caixão, me lembro de chuva, me lembro de rosas, me lembro de terra, me lembro de abraçoes, me lembro de ir embora, me lembro de ver os outros seguirem com suas vidas, me lembro de me manter parado, me lembro de lágrimas todos os dias, me lembro de me esconder, me lembro de te procurar, me lembro de não acreditar e me lembro de me manter assim, até hoje, até amanhã, até te encontrar.

Mais do mesmo

É, eu sempre soube que não seria fácil, mas ninguém nunca me comunicou sobre o nível tão alto de dificuldades, de sofrimento, de dores e, principalmente, de lágrimas. Eu só posso te agradecer, te agradecer pelos dezoito anos de afeto, carinho, amor, amor, amor incondicional. Hoje eu sobrevivo pelo pensamento de que não gostarias de me ver desistindo de tudo, que não era isso que planejavas para a minha vida, sobrevivo pois penso que me observas, cada passo que dou eu imagino que você está presente, mas já estás longe, tão longe que não sei definir a distância que existe, mas, a cada lágrima que derramo, me sinto mais conectado a ti, me sinto tão próximo que acho que quase consigo sentir a dor que você sentiu, me sinto tão próximo que consigo por uma pequena fração de segundo ver teu rosto próximo do meu, sinto tua respiração, sinto teu cheiro e então você vai embora e eu volto a ter apenas a mim mesmo e a minha única amiga que permaneceu após sua morte, minha melancolia.

18 abril, 2011

Sozinho

Me desculpa, desculpa por não demonstrar a força que deveria te passar, desculpa pelos gritos, pela minha falta de afeto, também te peço desculpa por te deixar tão feliz ao saber que iria me ter por perto no cotidiano e eu, estúpido, fui embora sem aviso prévio, te deixei sozinha. Me desculpa por só perceber essas coisas agora, agora que te tiraram de mim, agora que é tarde demais, agora que já não podes me escutar ou me perdoar, agora que estou sozinho.

23 março, 2011

Sujeito

É tão pequeno, tão forte, tão fatal. Ela é tão dócil, tão bonita, tão amada. Ele é tão triste, tão sozinho, tão chorão. Aquilo é tão misterioso, tão poderoso, tão injusto. Aquele é tão esquisito, tão desajeitado, tão boboca. Eu, eu. Eu, eu...

Renato

Renato Russo uma vez me disse "Quando tudo está perdido, sempre existe uma luz" mas, hoje eu não quero me lembrar desse verso, hoje a tristeza me dominará e me perseguirá o máximo possível, eu deixo, de certa forma gosto dessa melancolia, gosto de compartilhar comigo mesmo minhas tristezas, mas, isso tudo é só hoje, isso passará, amanhã, quem sabe, estarei melhor, não é? Eu realmente não sei o motivo de prolongar tanto este sentimento, não compreendo e com sinceridade, não sei se gostaria de entender, mas, tenho certo medo de deixar esse sentimento ir embora, tenho medo de o que vai restar de mim ao deixá-lo ir. E no meio de um nada, me lembro de um outro verso de Renato Russo: "E no fim do túnel, em vez de luz tem tiroteio".

Do Começo ao Fim


Eu te amo porque você é meu. Eu te amo porque você precisa de amor. Eu te amo porque quando você me olha, eu me sinto um heroi, eu te amo porque quando eu te toco, eu me sinto mais homem que qualquer um.
Eu também te amo, te amo porque quando eu te toco eu te faço sentir mais homem que qualquer outro. Eu te amo porque nunca poderão nos acusar de amor. Eu te amo porque para entender o nosso amor seria preciso colocar o mundo de cabeça para baixo. Eu te amo porque eu sei que você poderia amar outra pessoa, mas, mesmo assim, você me ama, apenas você.

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Quinze anos depois, quando mamãe morreu, eu tive a certeza que a permanência das coisas nãodepende só da nossa vontade. Existe um sentido maior, misterioso, inalcançável que determina o calendário do nosso tempo. A falta que sentia da minha mãe naquela hora era um sentimento que eu não conhecia, que não sabia que existia. Um segredo desvendado sobre o destino. Assim sendo, deixava de ter interesse, questionar porque ela tinha desaparecido tão cedo. De alguma forma este conhecimento nos tocou com surpreendente sentido libertador, ficou o amor e a saudade.

(Do filme Do Começo ao Fim)

14 novembro, 2010

De vez em quando


De vez em quando eu penso, por alguns instantes, que tudo está bem, mas sou bombardeado de hora em hora por lembranças, pensamentos e recordações. Não, não quero parar de pensar em ti, só quero conseguir me acalmar, quero voltar a ter paz de espírito, eu quero sorrir com sinceridade e não fingir estar tudo bem, quero me sentir do jeito que demonstro estar, eu quero recuperar tudo que perdi, quero ter você de volta para mim, eu preciso, você sabe disso, você sabe.
De vez em quando eu paro, não faço nada, observo o nada, encaro o nada, deixo minhas lágrimas fluírem quando estou com o nada. Desabafo com ele, agarro ele com força, tento imaginar que você é ele, imagino que você está para voltar a qualquer instante.
De vez em quando eu estou sentado, sentado em um carro, e me lembro quando estava sentado em um outro carro, indo em direção da realidade, lágrimas começando a fazer parte de mim, com esperanças que a realidade não fosse tão má, com o desejo de te encontrar, com a vontade de te abraçar, querendo você comigo de um modo que nunca quis, uma vontade de te falar, não importa o que, só falar, falar, saber que você me escuta, que se importa comigo, que me dá atenção, que é minha guardiã, onde estás? quem será minha guardiã agora?

29 outubro, 2010

Encontros

Uns dias atrás conheci uma senhora, ela não me informou seu nome, mas eu não me importo com isso, ela me contou o suficiente para ganhar minha admiração. No dia que eu a conheci, eu chorava, não me recordo o motivo, mas me lembro perfeitamente do olhar dela, olhos escuros, brilhantes, me trasmitiam a paz necessária para aquele momento. Eu não sabia muito bem o que falar, nunca fui muito bom com palavras faladas, ela me olhava de uma forma diferente, me encarava, me observava e me admirava. Teve algo em nosso primeiro encontro que fez com que sentissemos necesidade de nos encontrarmos mais vezes, diariamente, a cada dia nossa relação ia ficando mais intensa, ela sempre me olhava com aqueles grandes olhos que me transmitiam tamanha segurança, eu não me atrevia a falar nada, me arrepiava só de pensar que aquela paz poderia ir embora ao pronunciar qualquer coisa.
Teve uma vez que eu estava deitado, na casa dela e sem perceber adormeci, sonhei que ela me deixava, em meu sonho um homem alto, forte, com uma expressão desumana no rosto se aproximava dela, ela falava com ele normalmente, como se o conhecesse muito bem, como se tivesse um grande carinho por ele, o cumprimentou e o olhou com aqueles olhos tão brilhantes... Não percebeu quando o homem sacou uma pistola 380 da calça e direcionou a monstruosidade metálica para o corpo dela, disparou diversas vezes, continuou encarando os olhos, que iam perdendo o brilho, que derramavam lágrimas, que pediam piedade, que suplicavam compaixão, lentamente o corpo daquela senhora foi se estendendo ao chão e o homem se foi, a deixando estirada no chão, com sangue ao redor, ela no sonho tinha o olhar fixo e a visão que eu tinha era a que ela mantinha o olhar em mim, sem o brilho de sempre, sua boca estava paralizada, mas eu conseguia ouvir sua voz, então percebi que estava acordado, que ela chamava por mim, que estava ao meu lado e que não me deixaria, como instinto, me pronunciei:
-Eu te amo, mamãe.
Com meus pequenos braços, a aguarrei pelo pescoço e não soltei até conseguir adormecer novamente, sentindo a respiração dela, com as mãos dela massageando meu cabelo e com aqueles olhos me admirando.

07 outubro, 2010

"Obrigada por serem meus filhos"



Meus filhos,

Cada ano que passa admiro mais vocês: por suas posturas, por causa dos belos homens que estão se tornando, por tudo que vocês são, principalmente ouvintes, amigos e companheiros. Tenham a plena certeza de que vocês são muito amados e principalmente respeitados. Se tristezas acontecerem no decorrer de seus caminhos, continuem o grande desafio que é viver! Eu amo vocês, obrigada por existirem na minha vida!

Fátima Barbosa.


É com tais palavras amorosas que me contento. Não tenho mais direito a abraços, beijos, cheiros, gargalhadas, mãos dadas e muito menos o direito de te olhar nos olhos. Direitos foram tomados de mim, tomados na hora errada, na hora que mais precisava de todo seu apoio. Quanta falta de elegância daquele homem de coração tão amargo. Já se passaram várias semanas, mas ainda me pego sorrindo ao olhar teu sorriso estampado na foto, nem percebo as lágrimas que de tanto pedirem, permiti que entrassem em minha rotina. Foram dias difíceis, para ser sincero, ainda são bastante complicados de superar, é fácil de se falar no decorrer do dia, mas não há nada mais barulhento que os meus pensamentos no silêncio do quarto onde tento adormecer, não há nada mais doloroso que não ouvir resposta ao sussurrar para sua imagem que eu te amo, não há nada mais enlouquecedor que a ideia de perder quem me fez ser quem eu sou, ter que fazer dessa ideia uma realidade é indescritível, é algo que ainda não aprendi a verbalizar.
Eu me recordo com clareza aquele tempo em que madrugávamos no quarto, vendo aqueles filmes de drama que tanto gostavas, dos almoços de domingo em que se tinha aquele macarrão com um molho que só você sabia fazer, de quando morava com meu pai e passavas lá apenas para me dar um abraço, de como eu passava a mão por seu cabelo enquanto você dirigia. Eu escrevo aqui para tentar exorcizar toda essa dor que tenho carregado, as vezes me pergunto como estarei daqui a um ano, penso em 2011, estarei em uma faculdade, mas ao pensar nisso, penso que você não vai estar lá para comemorar comigo essa vitória, mas você me dizia que iríamos comemorar juntos, cadê você? Você me disse que estaria lá, você... É lógico que você estará lá, estará em meus pensamentos, mas, poxa, isso não é suficiente, nunca será.
Uma coisa que sempre achei bem ridícula sobre pessoas que perderam pessoas queridas é que sempre ao falar sobre a pessoa falecida, enfatizam as qualidades e apagam os defeitos, eu nunca compreendi direito, mas agora eu acho que entendo, ao pensar na minha mãe, não me vem a cabeça nada de ruim sobre ela, até os defeitos se tornam qualidades, pois sinto falta dela por inteira, até as brigas, os gritos, as palavras que não deviam ser ditas fazem falta. Nem adianta falar sobre arrependimentos, são incontáveis, mas o que me conforta e que tenho conhecimento que caso tivesse feito o que queria ter feito, ainda existiria outras coisas que desejaria ter feito.
Levei pouco mais de um mês para criar coragem de escrever sobre isso de uma forma mais racional, mas isso não mudou nada, eu continuo aqui, sentindo esse vazio e essa dor já virou amiga de tanta intimidade já existente, eu li este texto várias vezes pensando em como terminá-lo, mas acho que a forma mais sincera e crua de terminar isso é dizendo tudo que digo toda noite enquanto meus pensamentos não me deixam repousar: Eu te amo, eu preciso de você, volta, eu te amo, eu te amo, muito, muito...

Carta



A tragédia bateu à porta de Paulo Sousa Costa, conhecido produtor de espectáculos e namorado de Carla Matadinho. O seu filho Paulo, de 7 anos, mais conhecido entre os amigos pelo nome de Paulinho, faleceu subitamente, vítima de uma leucemia rara. Uma semana depois, no passado dia 28 de Setembro, dia em que o seu filho faria anos, este pai destroçado, escreveu uma carta ao seu filho.

A seguir, leia a carta na íntegra:

"A opção desistir de mim... e de ti!

Querido Dragãozinho Azul (mais à frente vais perceber porque te estou a chamar assim...), sim, estou a chorar a tua partida, mas repara que tenho feito tudo para enfrentar a maior perda da minha vida, com a força e a coragem que sempre te tentei passar! Sei que estarás muito orgulhoso dos teus papás pela forma como têm lutado, desde o primeiro segundo em que entraste no hospital...

Tudo o que fizemos até aqui foi decidido e feito em conjunto, pelo amor que temos por ti. A tua mamã e eu chorámos abraçados a tua notícia, entrámos de mãos dadas no crematório e foi agarradinhos um ao outro que te deixámos no mar. Ao som da tua música preferida "No One" da Alicia Keys, juntos tocámos nas tuas cinzas e nos despedimos de ti.

Gostava muito de te poder dizer que a dor tem sido amenizada com o passar dos dias, gostava de poder dizer que tenho tido mais força com o passar do tempo... mas estaria a mentir. E entre nós nunca houve mentiras, a nossa linda cumplicidade não permitia isso!

Vivo um segundo de cada vez sem saber como vou estar no segundo a seguir. A minha vida deixou de ter dias, passei a ter apenas um aglomerado de segundos sem nunca saber o que irá acontecer no segundo seguinte... Luto para manter a vontade de viver, na certeza que já não tenho prazer em viver!

Tenho-me lembrado muitas vezes da frase que tantas vezes te disse nas tuas corridas de karts "Desistir não é uma opção!". Quantas vezes te disse isso ao longo da vida, fosse a montar um lego, fosse a fazer os trabalhos de casa, fosse a trepar uma árvore mais alta? Nunca te deixei desistir, porque nunca fora uma opção de quem quer ser homem com H, como tu sempre quiseste ser!

Naquela cama do hospital, durante mais de 14 horas, pedi-te ao ouvido, milhares de vezes, para não desistires!!! Mas tu não conseguiste resistir.

Não querido, não estou por isso desiludido, porque sei que não desististe. Apenas estou revoltado porque não te foi dada hipótese para lutares mais!

Agora passo os dias a lutar também para não desistir e digo vezes sem conta "Desistir não é uma opção! Desistir não é uma opção!". Adorava conseguir acreditar nisto com a mesma intensidade de quando te o dizia...

Acho que a única forma que para já encontrei para não desistir foi tentar ultrapassar uma barreira por dia. Todos os dias tenho uma meta a cumprir. Hoje já consigo entrar no teu quartinho. Hoje já consigo olhar para as tuas fotos. Já tive forças para tirar a tua cadeirinha do carro...

A barreira que decidi ultrapassar no dia de hoje é ter tido a coragem de te escrever esta carta, no dia em que farias 7 anos!

Mas faltam-me muitas outras barreiras para as quais vou precisar da força que só tu tinhas o poder de me dar. Sei que sempre fui uma pessoa forte nas maiores adversidades, mas, querido, todo o homem tem o seu tendão de Aquiles. E eu, apesar de desde o primeiro momento em que tudo isto aconteceu andar a fazer de Super Homem, sinto, a cada dia que passa, que a tua ausência é a kriptonite que me retirou os meus "super poderes"!

Tenho a consciência que tenho sido um felizardo em termos de apoio. Não há um dia que não tenha dezenas de chamadas, mensagens e mesmo abordagens na rua de pessoas amigas ou desconhecidas que nos querem bem. Desde o primeiro dia recebemos centenas e centenas de mensagens!

Até o nosso Presidente Pinto da Costa nos enviou uma carta a dar-nos força, onde te chamou "Dragãozinho Paulo" (agora já percebeste porque comecei esta carta a chamar-te Dragãozinho Azul...). Já falámos por telefone e disse-lhe que foste cremado com o teu boneco com que dormias sempre, com o teu livro de histórias preferido e... com um cachecol do F. C. Porto!

A Carla, a nossa Carlinha não me tem largado um segundo! Nem a dormir me larga a mão. Gostava de lhe retribuir a força que me tem passado com pequenos gestos de carinho, mas neste momento apenas sinto um vazio dentro de mim e não consigo ser quem sempre fui. Resta-me a certeza de saber que ultrapassar esta fase sem ela seria, muito provavelmente, impossível! Espero que todos os homens que passem por isto tenham ao seu lado uma mulher como a Carla!

Tenho lido todas as centenas e centenas de mensagens que recebi, nelas tenho conseguido encontrar a energia para o segundo seguinte. É impressionante a quantidade de pais que já viveram este pesadelo. Andes por onde andares, sempre que encontrares uma criança, dá-lhe um beijinho e diz-lhes a todos que têm uns papás muito corajosos cá em baixo!

Todas as pessoas me têm dito, sem excepção, que foste para o Céu. Quero acreditar nisso mas o meu amor de pai ainda não me permite pensar/aceitar para onde foste, apenas consigo pensar/chorar onde não estás... ao meu lado! Todos me dizem que agora temos um anjinho no Céu a olhar por nós, mas eu preferia mil vezes o meu diabinho de caracóis na terra!

Recebi ainda mensagens a dizer que tenho sido uma inspiração para os pais deste país... fico lisonjeado, mas na verdade apenas quis ser uma inspiração para ti meu filho, em vida! Espero continuar a sê-lo! Sei que fui um privilegiado por ter tido o prazer de ter-te como filho. Espero que leves contigo a alegria de me teres tido como papá!

Paulinho, meu amor, não sei quando nem onde nos vamos voltar a encontrar, mas prometo que vou tentar continuar a colar os meus segundos, como se fossem os teus. Quero e vou continuar a sofrer-te para sempre, até porque, no dia que deixasse de o fazer estaria a esquecer-me de ti e isso é impossível! Mas espero que um dia possa voltar a encontrar a alegria de viver, que sempre nos caracterizou aos dois. No dia em que partiste não levaste apenas o teu sorriso... levaste o meu também!

Mas sinto que se desistir de mim, estarei a desistir de ti... E como sempre te disse, "Desistir não é uma opção!".

Amo-te MUITO!
Papá

Ps. Não fiques triste por não estares cá no dia de hoje. Vamos fazer na mesma um jantar de aniversário com todos os nossos amigos e, claro, com a tua mamã. Hoje e sempre vamos estar a pensar em ti!"

20 julho, 2010

Dedicatórias

Eu sinto falta de o que nós costumávamos ser, nós mudamos tanto, não consigo reconhecer o ser que nos tornamos, isso não é o que nós planejamos, eu não sou mais eu mesmo, você abandonou, eu abandonei, mas agora tentamos consertar, fixar, grudar, mas isso não está certo, não é assim que as coisas devem ocorrer, não é dessa forma que nós devemos acabar, não é assim, não é. O silêncio é tão relativo, nós costumávamos ficar em silêncio enquanto nossas mãos se cruzavam e nossos olhos repetiam o mesmo gesto, hoje estamos aqui, sentados, um em cada extensão do sofá, nossos olhares cruzados, mas com um tom diferente, nós sabemos que tudo está arruinado, não queremos assumir, não queremos aceitar. Eu odeio noites assim.

19 julho, 2010

Não eu mesmo

Eu não sei escrever, mas escrevo para tentar me livrar de tantos pensamentos que acabam me deixando confuso, mas os textos não me ajudam, eles não esvaziam minha cabeça, os pensamentos nunca se vão, permanecem, me consomem, me corroem e me destroem. No momento não sei dizer quem exatamente sou, peço perdão por tal desventura, mas não é minha escolha, não tenho como mandar isto embora, acabo colocando de lado, seguindo em frente, mas continua aqui, nunca se vai, nunca.

Briga interna.

Ei! Olha só o que está vindo, é uma nova onda de alegria, ela vem com tudo e aparenta ser o suficiente para todos! Podemos finalmente dizer adeus para toda a guerra e toda ignorância que nos acompanha já tem milhões de anos. Finalmente vamos mudar, vamos inovar, vamos parar de renovar. Aperto de mãos, risos descontrolados, sons desconhecidos. Lágrimas, lágrimas rolam desesperadamente pelo rosto, elas anunciam a chegada pelo lado oposto, correndo, voando, vem se aproximando, não se consegue entender, mas finalmente se consegue ver que ela sempre esteve ali, nós não somos mais os mesmos que eramos, por favor, não vão embora, nós precisamos um dos outros, batidas, toques, calor, é tudo tão estranho, sem pontos, virgulas tomam conta das nossas vidas, eu me lembro de você, acabaste indo embora, outros foram com você, era cedo demais, não era a hora. Todo dia é uma pessoa diferente, a pessoa errada, a pessoa errata, mas foi embora, cedo demais e isso mudou com a continuidade do meu ser, do meu trabalho e de meus amigos, eu me lembro de você em dias assim, nas madrugadas perdidas onde me perco no meio da brisa que vem com os anjos e passam sem me ver, até a próxima vez. É tão estranho, não se consegue identificar, não, não, não, NÃO! Não se consegue, não se pode, não se admite, não pode ter sido tão cedo, cedo demais. Aprendendo a ter tudo que sempre se quis, eu tive o meu começo feliz, mas onde se está o final? Qual o motivo de serem tão antônimos? Qual o sentido? Lembro da tarde, mas não é sempre, você está ali, eu estou aqui, olhares se cruzam, você me manda aquele sorriso torto, mostrando-me seus dentes brancos, no mesmo momento a lágrima se encontra em sua face, você se vira, se vira. Revira e corre para mim, pula em meus braços e me dá um beijo no meio dos tantos outros que se seguiram, antõnimos se tornam sinônimos, ou algo do tipo.